Luiz-Olyntho Telles da Silva Psicanalista

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Iluminuras dos Afetos
Robson Pereira Gonçalves

Um livro de crônicas alcança seus propósitos quando consegue destravar, ou pôr a lume, o que permanece da vida passada, da experiência do presente, da memória, enfim o que se traduz como perene dos acontecimentos diários e, mesmo, dos desvios da memória. Ou como diria Heidegger, aquilo que faz com que a fecundidade medite. Este é caso de Luiz-Olyntho Telles da Silva e de seu Iluminura Turca e outras crônicas. O que fortalece essa opinião, é o grau elevado de facetas de sua imaginação e associações, que permite alojar sua visão pessoal, subjetiva, ante os fatos da história, da cultura, e os fatos e os acontecimentos do cotidiano. Isso permite, de um lado, a estimulação poética do Autor e, de outro, marcar suas crônicas num lugar entre a poesia e o conto, ou como gosto de dizer, de suas novelas.

Luiz-Olyntho tem uma marca registrada em sua prosa: a mescla de uma linguagem acessível que se une a uma memória prodigiosa, com uma solidez intelectual, centrada em suas leituras e andanças mundo afora. Eis que aí repousa sua erudição, não numa maneira acadêmica, mas leve e prazerosa que permite aos leitores a meditação e, claro, a aprendizagem. Chamo a isso de próteses intelectuais, um enredo e uma tessitura de assuntos e associações, como numa bricolagem, que intensificam seu ponto de vista e, melhor, externam sua afetividade ante os desígnios da arte, da música, da literatura, dos amigos e da família. Essas próteses, antes de emitir uma crítica ou mesmo um juízo de valor, permitem exemplificar como a memória se estende pelos afetos encorpados na escritura.
Não passa despercebido que a primeira memória, o prólogo engendrado pelo Autor, seja A Crônica de Cronos que é a linha dos afetos que se repetirão livro afora. Como numa referência ao Nome-do-Pai, conceito de Jacques Lacan, ou mesmo ao Pai da Horda Primitiva, alusão de Freud de um pai dual e virtual, por muitas vezes ameaçador e recalcador. Mas o que isso tem a ver com   sua narrativa? Luiz-Olyntho reflete sobre a história da crônica, desde sua fundação, e informa que o inusitado, o não antecipado, se intensifica no olhar do cronista por vezes como fascinação e, por outras, como um horror da dualidade do dia e da noite, como diria Fernando Pessoa no seu O Marinheiro. Assim, nos fala do tempo e da memória, das ameaças da existência e de como esses simbolismos se apresentam na arte de um Rubens, de um Goya e, num objeto seu de fascinação, na obra de Dante Alighieri. Sua defesa é calculada na crônica-memória como antídoto ao passar do tempo, identificado em Cronos, ou Saturno, que vai repetir esse inexorável sintoma de desejarmos superá-lo. O pessoal que estuda, desde os gregos, a astrologia, os horóscopos ou as coisas do Tarot, como o mago Aleister Crowley, costuma afirmar que Saturno sempre retorna em nossa jornada para nos cobrar e a infligir severas penas pelo nosso descaso frente ao efêmero, ou o lado negro de nosso desidério final. Nosso cronista já antecipa essa e as outras assertivas, todavia com o cuidado de, pela palavra fundada, vislumbrar pelos seus “raios” a memória de seus afetos, lugar de sua vivência de satisfação.
A crônica que se segue, Avúnculos, repousa na questão da paternidade e suas relações sociais e culturais. A ironia presente toma a questão da inteligência ou melhor, a falta dela, como causa primal de alguns acontecimentos que se nos aborrecem nos dias de hoje. Luiz-Olyntho se vale da lembrança familiar para tecer suas observações, nada avunculares, sobre o nascedouro do que se cria – o bem e o mal - e como isso se deteriora frente a vida política e social. Antes de chegar no clã Bush ou Tony Blair, parte de suas motivações, nosso Autor relembra a fábula da raposa ou como ela aparece em Joyce em seu Ulysses, nas notícias de jornais, ou ainda em José Saramago em seu O Ano da Morte de Ricardo Reis, ou mais ainda na novela de Truman Capote, tornada filme e beatificada pela crítica, Breakfast at Tiffany’s (Bonequinha de luxo, na tradução desgastada em língua brasileira), onde o olhar pueril re-encanta uma outra humanidade. Seu intento é refletir sobre os avanços da ciência e nossa arraigada dependência de um nirvana terrestre, deixando de lado ou para trás o que de humano ainda nos resta. A tal redenção que todos desejamos, parece se esvair na medida em que, passo a passo, desconstruímos nossa memória e os nossos afetos expectantes, enfim como se exterminamos o nosso desejo primeiro.

Este livro é capitulado, em ordem cronológica, quando essas nuances mnêmicas irrompem. Não há uma temática prévia. Todavia, aquele apreço deveras afetivo, conduz os temas e as impressões de nosso Autor frente às situações e empreendimentos que o levam a ter esperança nas feituras de uma humanidade. Humanidade essa que, por decisão e hereditariedade de uma formação, retomam os feitos e os ditos que possam eleger, principalmente nos dias de hoje, a uma redenção. Se de alma ou de ética do sujeito, não saberia dizer, mas com certeza de esperança e, muito mais, na crença e nas repetições de que se possa, ainda, daquelas formações fundamentais do que se espera da inteligência. Eis que se vislumbra, deveras pontual, a humanidade perseguida pelo Autor, como se fosse uma intransigência à vulgaridade, ao conformismo, ao ócio da tecnologia e dessas formações ideológicas e religiosas que, sempre sem eira nem beira, cometem holocaustos no que de positivo a herança darwiniana nos legou.

Nesse conluio de observações, esta obra cobre tanto a memória como as reminiscências daquilo tudo que formou, agora, num grau sintomático de um ser-em-progresso frente às vicissitudes da existência. Sendo assim, Luiz-Olyntho ponteia haicais, origamis, o tablao flamenco, a corrida de um coelho, porém não menciona John Updike em seu Rabitt, run, nem a canção Run rabbitt run de  Noel Gray & Ralph Butler, como metáforas da pressa ilusória de que se nos cerca. Muito menos lembra John Lennon em sua I’m only sleeping, todavia está correto em certificar que precisamos correr para girar os retornos dessas formações mnemônicas para nos formatar aos imprevistos da vida. Surgem daí suas impressões sobre um concerto, sua homenagem a Shirin Ebaldi, as motivações de refletir sobre Lucrécia, tanto a romana laudada em Shakespeare ou antes em Tito Lívio, mas abrindo caminho para compreendermos a saga de Lucrécia Bórgia, a filha do espanhol papa Rodrigo Bórgia. Mais ainda, quando reflete sobre os efeitos de uma escritura sobre uma outra, caso de Borges e Cervantes e, in continuum, pensando em Erico Verissimo e seu O Senhor Embaixador, como de resto Machado de Assis e, claro, Dante, para afirmar que somos amaldiçoados quando perdemos o dom de pensar e nos deslocamos para os periféricos, sem as motivações que poderiam alicerçar os equilíbrios da vida.

Para os leitores vorazes e, mesmo, para aqueles iniciantes estas crônicas poderiam servir de pórtico para a citada humanidade, com suas complexidades e desvarios e delírios, sobre o que se conhece e o que se ignora, suas vicissitudes e devaneios comuns, todavia se firmam como aposta e ideal-de-eu, como substância simbólica, para um porvir, de ordem crítica e sem os ranços melancólicos, da crença no pensar, no meditar e, principalmente, eleger a memória e sua raiz subjetiva. Nessa esteira, tomo sua crônica Almas à Venda como um presságio para um futuro incerto de nossa humanidade. Com uma profundidade mais além do que a diretora francesa Sophie Barthes apresenta, ironicamente, em seu filme. Luiz-Olyntho nos conduz a outras questões em torno do tema. Qual é, por certo, o nosso desejo de nos recriarmos com uma outra nomenclatura? Qual será o destino de uma alma, ou melhor, a jurisdição sobre ela que não mais nos pertencerá? Em sua reflexão e memória, o Autor cita Tchecov, Platão, Edmund Wilson, Vladimir Nabokov, uma constelação de correlatos que, de uma forma ou outra, o levam ao aturdimento, ou como expressava Jacques Lacan o l’étourdit, de encarar a imensidão da incompreensão do estatuto subjetivo. Todavia e sempre, nossa salvação advém da invenção, da criação de elementos que possam ser significados de uma forma menos prosaica. Sua crença se fortalece, mais ainda, quando constata que isso de alma ou transposição de fantasias não assegura nada, ao contrário, a fidelidade no desassossego da criação ou da invenção é que permitirá o enlevo, mesmo ilusório, da satisfação.

A crônica que se associa ao título da obra – Iluminura Turca – advém da leitura do Autor da novela de Orhan Pamuk (Nobel de 2006), Meu Nome é Vermelho, que será o mote para a reflexão de amor e morte. Ou melhor, de como os mortos, os cadáveres, podem nos contar com certa proficiência as exatidões do dia a dia. Para tanto, é que se lembra das miniaturas, mais ainda das iluminuras medievais que, como um croquis, estabeleciam os moldes para as fantasias na idade média. Luiz-Olyntho percebe isso e, mais, indaga do trabalho dos artesãos, os artistas subjugados pela dita fé, que teriam que exercitar sua proficiência por 50 anos, até chegar ao reconhecimento de ter sua criação aceita. Mais uma vez, nosso cronista se vale de exemplos e associações, como Machado de Assis em seu Brás Cubas, ou Homero em sua Odisséia, para justificar que a morte desenhada pelos homens contém infinitas variantes ou, melhor, inusitadas estórias a contar. Isso lembra Tzvetan Todorov que, na análise d'As estruturas narrativas, concebeu um texto chamado de Homens Narrativa- tratava das Mil e uma Noites -, onde a estória virtual de alguém sustenta vida e morte. Nosso Autor aponta Bizâncio, hoje Istambul, como o cerne dessas codificações orientais e ocidentais, onde a mistura de crenças, mitos e folclore acolhem essas nodulações de língua e mito/místico que provém de um além, ou o mundo dos mortos. Entretanto, provém dessas discrepâncias a valorização do amor e de todos aqueles valores românticos e idílicos, o erguimento do capitalismo, de uma certa postura democrática, que reflete os atos individuais e que vai formar o tal do humanismo. Mas nada que não se assente sem sangue, suor e lágrimas.

Este livro de crônicas não se assenta em alegorias, necrologias, entrevistas, resenhas, confissões, monólogos ou diálogos entre personagens, mas com certeza numa postura que costura memória e história, afetos e irrupções subjetivas, com o olhar curioso e denso nas coisas do cotidiano. O desassossego que impulsiona o ato criador, aquilo que chamamos de ato poético, é percebido, não em plenitude, todavia como o formão que desenha os planos e as ranhuras que elevam o olhar, a afetividade a um plano maior. Por isso, e outros adereços, mantenho minha crença, meu reconhecimento laudatório, às invenções de Luiz-Olyntho que soube traduzir o que mais me inflama na literatura, o estatuto pulsional dos afetos.

Santa Maria, novembro de 2015.

ROBSON PEREIRA GONÇALVES é professor de literatura na Universidade Federal de Santa Maria, RS





 



 


  
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