Luiz-Olyntho Telles da Silva Psicanalista

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O SILÊNCIO DA CHUVA
Luiz Alfredo Garcia-Roza
São Paulo, Companhia das Letras, 2005, 243 pp.
Prêmio Jabuti
Prêmio Nestlé

O SILÊNCIO DA CHUVA

 

Poi piovve dentro a l’alta fantasia.
Dante: "Purgatório"; XVII, 25         

 

A quarta capa do volume classifica o romance como policial. É verdade! Trata-se de uma aventura do detetive Espinosa, Delegado da 1ª D.P.

Assim, de entrada – ainda que pela porta dos fundos, o que, para um detetive, não há de ser tão extraordinário –, defrontamo-nos com uma interrogação: o gênero policial pode ser reconhecido como literatura?

Há quem negue ao gênero esse direito. Embora lide com crimes, a novela policial não é uma crime story, como  em Sófocles, Eurípides e Shakespeare, para citar os clássicos; nem  como em Dostoiévski. A novela policial é antes uma história na qual o herói é sempre o detetive – como no caso de Espinosa. É esta característica da detective story que parece colocar o romance policial fora da literatura.

Por outro lado, se os eruditos não consideram o romance policial literatura, eles a adoram! Otto Maria Carpeaux afirma que Bertrand Russell e T.S.Eliot eram apaixonados por essa espécie de leitura e que Brecht, ao morrer, deixou uns 500 volumes do gênero. Josué Montello, ocupante da cadeira 29 da nossa Academia Brasileira de Letras, também escreveu romances policiais, e bons, como O camarote vazio, de 1990, embora se caracterize antes como crime story do que como detective story.

W.(Wystan) H.(Hugh) Auden - de cuja erudição ninguém duvida -, falando sobre o romance policial, propunha considerar os livros de Raymond Chandler, talvez o melhor discípulo de D. Hammett (O Falcão maltês), como  verdadeiras obras de arte. 

Quer dizer, o estilo, e, principalmente, a presença de um metatexto, deve fazer toda a diferença!

Pois bem, aqui temos a primeira aventura de Espinosa, Delegado da 1ª D.P.

A pretensão de Garcia-Roza  embora já nas primeiríssimas linhas ele encontre um meio de dizer tratar-se de uma detective special1 [story] (p.11)  por certo é a de incluir seu romance na literatura considerada erudita. Argumento suficiente é o fato de batizar o personagem com o nome de um filósofo, nascido na Espanha e depois anatematizado por pensar diferente de sua comunidade. Espinosa é um Delegado diferente dos outros. Registremos, a propósito, uma frase de Baruch Espinosa que poderia ter servido como lema para o Delegdo da 1ª D.P.: Esforço-me para não rir das ações humanas, para não deplorá-las nem odiá-las, mas para compreendê-las.2  E ainda reivindica como substrato teórico para sua aspiração a obra de Thomas de Quincey (p.37) – um dos autores preferidos de Borges –, Do assassinato com uma das belas-artes, escrito entre os anos de 1827 e 1839.

Além disso, igual ao seu autor – um psicanalista e importante professor de literatura psicanalítica, com o qual coincido plenamente em sua valorização da metapsicologia freudiana –, o personagem é também um aficionado pela literatura. Apaixonado especialmente pela americana, adora Hemingway (p.37), e eu apostaria no seu Adeus às armas como o favorito. Adora todo o Steinbeck (p.37) e do Faulkner (p.37), pelo menos o shakespeariano O som e a fúria, com um lugar especial em seu coração para o Bartleby, de Melville (p.37), ao qual retornará por mais duas vezes, no início do subcapítulo 2 (p.130) do primeiro capítulo da parte II, e no final do romance. Depois, ao longo do livro, ele vai mencionando mais alguns, como Vida e Aventuras de Nicholas Nickleby, de Charles Dickens (p.106), que ele assim compra e já começa a ler, mas que por certo já sabe tratar-se das desventuras de um jovem devido à ruína econômica de seu pai. Menciona ainda uma tentativa frustrada de adquirir outro Melville, o Moby Dick (p.115), e compra um inespecífico Joseph Conrad (p.134) que começa a ler dentro do carro. É verdade que ele poderia ter mencionado pelo menos mais um americano, entre os seus preferidos. Já veremos por que não o faz.

O silêncio da chuva está estruturado dentro de três partes. A insinuação de Baruch Spinoza faz pensar na religiosa santíssima trindade inspiradora, por sua vez, da Divina Comédia, também dividida em três partes, embora aqui não se alcance ao Paraíso. Ou sim? Seu andamento está mais para a Odisséia, de Homero, também dividida em três partes, e, por extensão, também como o Ulisses, de Joyce. Como esses, neste Garcia-Roza cada parte subdivide-se em outras. 

A parte I tem dois capítulos: As duas artes, com um prólogo mais 16 subcapítulos, e Max, com 9, além do prólogo; a parte II também tem dois capítulos: Outubro, com seis subcapítulos, e A carta roubada, com 8; a terceira parte, uma espécie de coda que, como tal, suporta uma estrutura diferente: tem um único capítulo, batizado com a frase preferida do seu pré ferido Bartlleby – Preferia não fazê-lo –, sem prólogo e subdividido em 10 subcapítulos.

A história sabemos como ela é: um empresário, jovem de menos de cinquenta anos, com dificuldades de relacionamento, não só com sua esposa, mas de modo geral, uma possível vítima de um  – ainda que não esclarecido – mau negócio, quer morrer deixando um gordo seguro para sua mulher; para garantir isso toma algumas providências para descaracterizar o suicídio. 

Isso tudo já ficamos sabendo no prólogo ao primeiro capítulo, uma espécie de olho do romance – para usar uma linguagem de jornal. Se a cena não é impactante, pelo menos termina com um impacto: o do tiro (p.12). É uma cena forte. Depois ele vai tratando de esmiuçar os acontecimentos pelo exame das diversas pontas soltas, e eu diria que, para isso, Garcia-Roza aconselha-se com Tchekhov, indo de fortíssimo a pianíssimo. Contudo, chegando ao final, ele nos surpreende com uma fortíssima e tórrida cena!

O prólogo do segundo capítulo relata a cena seguinte ao disparo, mostrando a realização do desejo do suicida, ainda que por linhas tortas.

Se eu tivesse de dizer do que mais gostei nesse livro, citaria o personagem central: Espinosa. Não é difícil para nenhum leitor identificar-se com alguém que gosta de livros. Nossa simpatia voa fácil para quem tem nos livros seu principal fetiche. Esse homem nem prateleiras tem e lá estão os livros a indicar sua última passagem pela casa, mergulhando em paisagens de distâncias não permitidas por sua pobre porta-janela que se abre para não muito mais do que a janela de Bartleby, para uma parede. Espinosa precisa dessas distâncias para pensar nos seus casos. Vê-se sempre como estrangeiro (p.204), pois sabe da necessária condição de exílio para poder pensar. Embora não fique deslumbrado pela paisagem de Copacabana, precisa do cenário! Ele o ajuda a fantasiar hipóteses para seus casos.

E mais: para um psicanalista, um detetive há de ser sempre uma figura muito simpática. Flávio Rangel disse uma vez que Édipo foi o primeiro detetive da história.

Depois disso, tivemos muitos outros: Philip Marlowe, de Raymond Chandler, junto com Nero Wolf, do Rex Stout, são dois americanos bem conhecidos. Tivemos também Sherlock Holmes, esse incrível detetive inglês, que está sempre voltando a cartaz e que já resolveu casos até aqui no Brasil, a pedido de D. Pedro II, conforme nos contou Jô Soares em O Xangô de Baker Street. E James Bond? E miss Marple? Quem não lembra de Poirot, o belga de origem inglesa que não tolera ser confundido com um francês? Francês mesmo, temos Maigret, de Georges Simenon, e sem esquecer, claro, de outro francês, ainda que de origem americana, o inspetor Jacques Clouseau, nem por desastrado, menos eficiente! Mais algum? Verdade que, na ascendência direta de Espinosa, temos dois outros importantes detetives, Pepe carvalho, do espanhol Manuel Vasquez Montalbán, e Salvo Moltalbano, criado pelo italiano Andrea Camilleri em franca homenagem a Vasquez Montalbán, em cujo método se nota uma nítida influência das ideias de Baruch Espinosa: o importante não é condenar, mas sim  compreender. Os dois últimos, Salvo e Pepe, comungam com o Espinosa de Garcia-Roza o gosto pelos livros, pela boa mesa, e também pelas mulheres, características estas que os diferenciam de outros detetives, especialmente de Mr.  Sherloc  Holmes, que da  literatura só lhe interessavam os relatos jornalísticos  escabrosos, os quais, aliás, conhecia  todos;  a boa mesa nunca foi assunto seu, e pelas mulheres só se interessava quando envolvidas nos crimes. Como companhia bastava-lhe o Dr. Watson, um inestimável auxiliar, como o foram Biscuter para Pepe Carvalho, Fazio para Montalbano e Welber para Espinosa. 

Mas tem pelo menos mais um que não posso deixar de mencionar. Ele tem a mesma origem que o chief inspector Clouseau, de Blake Edwards. Por certo não tem o renome de um Maigret, nem mesmo o de um Clouseau, mas resolveu um importante caso, conhecido, tal qual o segundo capítulo da segunda parte de O silêncio da chuva, como A carta roubada (The pourloined letter). Apesar de sua grande e rara inteligência, tenho a ideia de ele ser menos conhecido, fora do círculo dos aficionados, do que os outros aqui mencionados. Sua notoriedade, sem dúvida, deve-se a Charles Baudelaire que o traduziu para os franceses. Trata-se do detetive C. Auguste Dupin, de Edgar Allan Poe,3  que vive em sua biblioteca, no nº 33 da rua Dunot, no bairro de Saint-Germain, em Paris.

Quando se trata de refletir, Dupin prefere o escuro do apartamento, enquanto Espinosa perde-se nas imagens do porto (p.13), vagando seu olhar pelo convento de Santo Antônio (p.18), pelo Jardim Botânico, etc. Mas a verdade é que ambos precisam de outro espaço, um espaço que lhes proporcione solidão para deixar circular suas ideias, suas fantasias.

Além das características dos detetives, a ideia central de O silêncio da chuva, de Garcia-Roza, é a mesma de A carta roubada, de Poe. Em ambos, aquele que detém a carta, arma-se do poder por ela emanado. Mas a seriedade do empréstimo vai até aí. Depois, temos uma paródia, ainda que norteada sempre pelo ensino fundamental de Thomas de Quincey: Não existe o esquecimento total, as pegadas impressas na alma são indestrutíveis. E talvez esse seja o momento de dizer que se Garcia-Roza não mencionou Poe explicitamente, fortes pegadas ele deixou para que nós, leitores-detetives, pudéssemos descobrir!

Esses empréstimos a um e outro autor me fazem pensar também no Hamlet, de Shakespeare: o crime oculto é trazido imediatamente para o centro da cena e os poucos que dele sabem ficam impedidos de contar aos outros. Isso permite o desenvolvimento do drama.

Agora, onde a transformação do drama em paródia talvez fique mais evidente é no Ulisses, de J. Joyce, no qual os episódios de A Odisséia, de Homero, são tomados de empréstimo, longinquamente e muitas vezes pelo seu oposto. Assim, por exemplo, o local em que Max esconde o botim de sua aventura é justamente o primeiro lugar a ser suspeitado pela polícia. Max, ironicamente, é o máximo do idiota. Deixa-se enganar, de cara, com a maior facilidade, ingenuamente, por Rose (p.93). 

Esse episódio me lembra a fábula de La Fontaine, O corvo e a raposa: fascinado pelos falsos elogios à sua bela voz, o corvo não tarda em abrir o bico e entregar o desejado queijo, recém-roubado, à esperta raposa.  E depois, quando o empavonado corvo Max quer dela vingar-se (p.109), é que se dá mal de verdade. Max é uma ridícula caricatura do Ministro D., de Poe. O Ministro, quando esconde a carta, impossibilita, com sua inteligência, a polícia de encontrá-la. Só um espírito sagaz, capaz de reconhecer as idas e vindas de um jogo de par ou ímpar, poderá reconhecer a astúcia de outra inteligência, uma inteligência capaz de deixar a dama, que tudo sabe, digamos, em maus lençóis. Em O silêncio da chuva é Rose que deixa o bandido em maus lençóis. E depois, se ela não tiver o melhor dos êxitos com os lençóis, isso por certo há de ser também por seu parentesco com o Ministro D., porque esconder a carta, ah! isso ela fez muito bem (p.225). 

Outra vez a paródia: ladrão que rouba de ladrão... paga aqui mesmo!

Descendente de Édipo, Espinosa sabe que não pode confiar em si mesmo. Talvez um pouco incrédulo da veracidade dessa afirmação, desloca a falta de confiança para os colegas: ora ele não conta tudo para o seu assistente, Welber (p.43), ora lembra que os policiais nem sempre são honestos (p.36) e, na verdade, não confia em nenhum dos colegas (p.204). Aparentemente, frivolidades. Mas quando se trata da relação com o ex-policial Aurélio, un cittadino al di sopra di ogni sospetto,4 Espinosa nem desconfia, mesmo tendo havido aí um silêncio reverente.

Aqui não aparece o silêncio da chuva, mas quem sabe se possa ler em silêncio reverente (p.105) uma reverência à silente chuva de Dante, esta que permite ver com os olhos da imaginação. E, depois, o excesso de confiança do delegado (talvez eu pudesse dizer do nosso delegado),5 bem poderia ser também outra reverência, agora à epígrafe constante no conto de Poe: Nil sapientiae odiosius acumine nimio. Nada é mais odioso à sabedoria do que o excesso de astúcia, do que se julgar sábio, reza a frase atribuída a Sêneca. Esse, aliás, é um dos pontos de aproximação do detetive com o psicanalista: ambos trabalham com o que não conhecem; embora conheçam um método, não têm a menor idéia do que procuram, restando-lhes reunir pequenos indícios, traços significantes. Por não estar advertido disso, o esperto Max, quando menos espera, dá-se mal; pelo mesmo motivo, o grande Aurélio, quando se imagina por cima, é que fica por baixo; e o nosso delegado, embora quando menos suspeite (pp.105 e ss.) é que está frente ao maior bandido, sua descoberta já não parece gerar uma grande surpresa.

Para chegar ao seu final, com a força requerida para um gran finale, o autor trata de ir criando uma expectativa. Sua técnica, como escritor, não é muito diferente da praticada pelo grande Aurélio (ironia!). Quando segue as pessoas, como diz o próprio Espinosa, ele quer criar um clima propício a uma intervenção mais direta (p.145). A expectativa que Garcia-Roza quer criar é em torno da figura da mulher, sempre enigmática. E então as imagens se sucedem.

Há a grande figura da aristocrática Bia, sonhada e solitária na sua educada beleza independente. E há Alba, selvagem e sensual, explosiva, mas facilmente domesticável. Há também as duas secretárias, gêmeas de uniforme, mas de almas secretamente distintas: Carmem e Rose. – Quatro faces de Eva.

E depois  as mães: a de Rose, d. Maura, pobre, de triste fim; a de Espinosa, e  a mãe de sua mãe, a avó de Espinosa, e ainda a já distante ex-esposa de Espinosa.

O que parece uma descrição da mulher não passa da fantasia dos homens: as idealizadas são inatingíveis e os homens só podem se aproximar das menos valorizadas (p.165).

As atenções passeiam por todas elas, até se concentrarem na mais desconhecida: a sempre ausente Rose. Sua presença se dá sempre sobre um fundo de intriga e suspeita, de modo a conduzir ao final quando – ao concretizar-se uma fantasia, no melhor estilo Molly Bloom –, conforme anunciado já no segundo subcapítulo, do primeiro capítulo da primeira parte (p.14), revela-se, a contrario, um amor fatídico cujo ato só produz horror.

Notas:

1.  A referência é a um revólver detective special, um Colt Detective Special, calibre 38; uma arma conhecida pelos entusiastas como snubnosed (chimbé, arrebitada). 
2.  Sedule curavi humanas actione non ridere, non lugere, neque detestare, sed intellegere. 
3.  Edgar Allan Poe foi o precursor das histórias de crimes e detetives, com Tales of the grotesque and arabesque e The murders in the Rue Morgue.   
4.  Filme de Elio Petri, com o Gian Maria Volonté e a Florinda Bolkan. 
5.  Delegado como representante.

Porto Alegre, janeiro de 2010
Luiz-Olyntho Telles da Silva


Este ensaio foi produzido inicialmente a convite da Confraria da Leitura de Porto Alegre. Presidente de Honra: Ivete Brandalise. Em 7 de abril/2008.
A presene 2ª versão foi produzida para o programa Leituras: Janelas para o mundo, da Livraria Saraiva, Porto Alegre.

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