Luiz-Olyntho Telles da Silva Psicanalista

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UM ROMANCE FAMILIAR
NO FINNEGANS WAKE
1

Luiz-Olyntho Telles da Silva
Porto Alegre, 19 de agosto de 2004 / novembro de 2016/ maio de 2018.

No amor e na guerra, vale tudo.
(Ditado popular.)





Em 1908, Freud, para colaborar com o livro de Otto Rank, O mito do nascimento do herói, escreveu um texto sobre as fantasias das crianças em relação aos seus pais e também sobre seus desdobramentos ao longo da vida. Em sua primeira publicação, em 1909, o artigo não tinha título, e foi incluído como uma simples interpolação, junto de um agradecimento; mas, logo depois, quando da primeira reimpressão, como o assunto dizia respeito à paixão dos filhos pelos pais, recebeu o título de Romances familiares e, mais tarde, o próprio Freud incluiu esses romances dentro das fantasias mais típicas desenvolvidas durante a puberdade. Desde o momento em que a mãe aponta ao pai para o filho, abrindo com esse gesto um além em direção ao horizonte, acende-se a possibilidade da crítica à idealização e das fantasias de reconstrução do mundo. Elas estão na origem dos devaneios os quais, ao mesmo tempo em que contribuem para o afastamento dos filhos em relação aos pais, constituem uma característica essencial dos neuróticos e também de todas as pessoas relativamente bem dotadas.2

Em 1939, James Joyce, no primeiro capítulo de seu último romance – Finnegans Wake –, ilustra as ideias freudianas sobre o tema.

Em 1999, Donaldo Schüler, comentando sua própria tradução – batizadas as páginas 21,25-23,15 como A Peruapaquera –, conta-nos que o modelo do idílio a seguir foi retirado, por J.Joyce, de um relato do século XVI e transplantado no século XII. Nas suas palavras, Grace Ó Malice, uma pirata, ao voltar de uma visita à rainha Elisabete [a quem servia], chegou ao castelo do conde à hora do jantar. O conde, para não interromper a refeição, manteve a porta rudemente cerrada. Vingativa, a visitante raptou o herdeiro do castelo e rumou para seu próprio território. Não devolveria o menino enquanto o pai não prometesse que as portas do castelo jamais seriam fechadas à hora da refeição.

Com as portas do castelo, abrem-se as da imaginação. A cada figura um novo enigma. Eles estão tanto no relato como na construção das palavras. A posição das letras muda de modo imprevisto e todo um mundo de sentidos se abre para o leitor (sem o qual o texto nada é!). Assim como as ervilhas, invaginadas na vagem, as palavras também estão umas dentro das outras. É preciso abandonar o conhecido para ir à busca do desconhecido. O neologismo abre para uma nova visão da história.

Leiamos um dos parágrafos do romance joyceano, o das páginas 21-23 do primeiro capítulo. Ler um parágrafo intermediário já é um modo de dizer que antes da cena há pródromos e, depois dela, consequências, epílogos.

Para viver a vida, é preciso saber da vida? Os enigmas vigem sempre. Para viver a cena do mundo, como no teatro, é preciso entrar em cena. É assim que leio a proposta de James Joyce em Finnegans Wake.

Então, como no teatro, um, dois, três: entremos em cena. Espectadores, espectamos. Tudo é novo, Adão vê o mundo pela primeira vez. Hip hop handihap [22,33]. Os jogos amorosos não são fáceis. Vencido o período de autossatisfação, difícil não ter um terceiro na relação, seja chaperone ou alcoviteiro. Ciúmes promovem guerras. Mudam os atores, permanecem os actantes. O número das batidas, pam, pam pam, pam pam pam, repetem-se em uma história do século XII com Mark the Wans [21,18], Mark de Twy [22,5] e Mark the Tris [22,29]. Mesmo o grande Rei Mark, um marco no reino da Cornualha, não é sempre o mesmo! Interessa-nos seus avatares. Ao Mark primeiro o enigma pergunta por que ser uma ervilha; ao Mark segundo por que, na vagem, ser duas; e ao Mark terceiro, por que ser três ervilhas. Como efeito da primeira, a enigmática pirata Grace O’Malice volta no tempo e sequestra um dos gêmeos, um dos jiminy3  Toughertrees,4  os quais juntos com a dummy, boba e muda, were belove on the watercloth5 kissisn and spitting6  [22,24-25]... Embora um valha pelo outro, os ciúmes estão presentes. Raptado, Tristopher é agora Tristão, sobrinho de Mark, e a rapace O’Malice, maliciosa, é Isolda. Amores proibidos geram guerras aguerridas. Os jogos amorosos podem ser tomados como guerras, e podem mesmo ser incestuosos. Mas o fair-play está sempre presente. Guerra gloriosa foi contra os Oranges holandeses, uma luta contra os Or-angemans, ingênuos ou dourados-homens-anjos? Lutam a cavalos, com o recurso do handihap – um peso extra a igualar todos os cavalos –, e o resultado dar-se-á por um triz, por um hap, por um acaso feliz. Soam sinos nos campos de guerra, escutem-se os brados, the campbells acoming [22:31]. Estão chegando os Campbells da Escócia dispostos a trair até os irmãos em troca dos benefícios reais.

Virados pelo avesso, quer dizer, seduzidos pela prankquean, por esta quean, por esta rainha da paquera (Donaldo diz princepaquera), Tristopher – que por um tris não é Cristo-pher, Cristofer, Lúcifer – vira Toughertrees. Não importa que seja apenas um dos irmãos gêmeos, pois se está um, está o outro; ambos aparecem anagramaticamente através – through – de um together; afinal são da mesma árvore, da mesma tree, tudo acontece por um triz, tris, trees.

Mas nem por serem frutos da mesma árvore o enigma é menor: why do I am alook alike two poss of porterpease? Donaldo recorre à semelhança icônica dos oo de alook com as ervilhas, e, é verdade, a própria palavra look se parece – alike –, com um par de óculos! Mas – antes de Pierce –, foi lembrado, contudo, o registro de um antigo ditado inglês que já comparava duas pessoas parecidas a duas ervilhas em uma vagem: Like two peas in a pod. As ervilhas na vagem são também como amêndoas e, como diria Paul Celan, em Mandorla:

In der Mandel – was steht in der Mandel?
Das Nichts.
Es steht das Nichts in der Mandel.
Da Steht es und steht.

Im Nichts – wer steht da? Der König.
Da steht der König, der König.
Da steht er und steht.


O König aqui é Mark que aparece por seus frutos. Freud já nos prevenira de que no fantasma nomeado, por ele, de Romance familiar nossos pais verdadeiros são sempre reis, dos quais fomos sequestrados por bruxas. Aqui, o modelo de bruxa é a pirata Grace Ó Malice.

E se passarmos de Mandel a Mendel? Acredito que seja uma maneira de adentrar ao enigma. Mendel, nascido Johann e batizado de Gregor ao tornar-se noviço dos Agostinhos – há cem anos cravados antes de eu vir ao mundo –, estudou a hereditariedade justamente por meio das ervilhas.  E ainda outra coincidência: Mendel entrou para os Agostinhos de Brünn! Ora, Brünn é Bruno, e é em um dístico de Giordano Bruno em que Joyce busca inspiração para batizar os gêmeos com os nomes de Tristopher e Hilary, Tristófero e Hilário (enquanto Misses Hilary Clinton, entre bambolinas, pergunta: – E eu rio de quê?): Hilaris in tristia, tristis in hilaritate.

Não resolvido o enigma, a rainha da paquera, a prankquean Ó Malice rides again: Mark the Tris, why do I am alook alike three  poss of porterpease? Insatisfeita, a looka [M]alice, como transcria Donaldo, insiste agora com três ervilhas, com três cervejas, com três Porter, os dois irmãos mais a dummy. A coisa está cada vez mais complicada, mas não é porque a guerra é intrapsíquica que se perderá o fair-play: há que se vestir adequadamente, oniricamente, com as cores do arco-íris. É assim que o conde Jar Von Hoother, qual um JaVeH ex machina, entra em cena, quer dizer, entra na liça com toda a sua elegância: seu chapéu de abas largas, seu broadginger hat [22:34] da cor do gengibre, um vermelho amarelado, seu colar cívico, símbolo de sua posição nobiliárquica, aposto sobre a cota de couro, vestindo também luvas e as famosas ladbroke breeks [22:36], as calças à prova de cobras. Cobras?! É muita cobra. São Patrício, rogai por nós! Nada está fora de lugar. É tudo muito preciso, cirúrgico mesmo, costurado à cattegut para que a capa pareça fazer parte do próprio corpo, e, se o baile é de cobras, há que ir com botas de bom couro.  Nomeadas as sete peças da indumentária guerreira, aparecem as cores correspondentes: o rudd yellan gruebleen [23:1], o vermelho, o amarelo e o verde azulado, o laranja da família, o violeta e o índigo da indignação completam a decomposição.

Depois de tantas Porters, a língua já está espessa, thick [23:4]; ainda é possível falar, mas pronunciar todas as letras já não dá! O trovão, a grande trova, é o prenúncio da queda.

For one man in his armour was a fat match always for any girls under shurts [23:8-9]. Um homem armado de amor, um armour, é sempre um grande negócio, um fat match para uma garota em calcinhas. É assim que se prepara a queda para a burger felicitates the whole of the polis [23:15]: Dublin é o resultado da queda de um deus, sua geografia conforma o corpo do gigante. E essa queda resulta na
foenix culprit. O Foenix Park, de Dublkin, coincide justamente com a zona genital do gigante; aí está o epicentro da queda, esta que termina por ser uma Felix queda, uma Felix culpa.
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1  Esse texto foi escrito em três tempos: o primeiro foi após uma troca de ideias com Aguinaldo Severino, David Brew, Ernani Frota, Heloisa Marcon, Maria da Glória Telles da Silva e Sirlei Turcato sobre as páginas 21 a 23, do Finnegans Wake, de James Joyce, em agosto de 2004; o segundo, após uma releitura do mesmo material, em novembro de 2016; o terceiro, em maio de 2018.
2  FREUD, S. Romances familiares (1909 [1908]), Rio de Janeiro, Imago, Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. IX, 1976, p.214.
3  Gêmeos.
4  Tough, valente
5  Cloth, pano
6  Cuspindo.
7  Na Amêndoa – o que está na Amêndoa? / O Nada. / Aí está o Nada, na Amêndoa. / Aí está ele e está. // No Nada – quem está aí? O Rei. / Aí está o Rei, o Rei. / Aí está ele e está. Trad. do autor.
8  Três.
 
COMENTÁRIOS
Joyce, a meu ver, é um inexcedível maneirista, no uso que faz do cultismo,  ao jogar linguisticamente com os elementos sensoriais, sinestésicos, e do conceptismo, no jogo com as ideias. Gostei da sua leitura para o romance familiar, conforme com a linguagem joyciana. Quanto ao jogo homofônico triz, tris, trees, eu o fecharia referindo a Trindade (pai, mãe-filho), pois, quando menciona os gêmeos, diz: afinal são da mesma tree, tudo acontece por um triz, tris, trees, e leio: unidos pela ação do Espírito - Tree - Alíngua. 
DULCINEA SANTOS, Crítica literária.


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