Luiz-Olyntho Telles da Silva Psicanalista

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Aqui poderão ser encontrados alguns dados sobre minha formação, minha prática, publicações, artigos, e também uma incursão nos campos da tradução e da literatura através de contos, crônicas e ensaios de crítica literária.

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Notas psicanalíticas:                                            07

A LINGUAGEM E A MOEDA GASTA
1

No Seminário Os nomes do pai, Lacan começa falando da angústia, da mesma angústia à qual havia dedicado o Seminário anterior. Talvez seja possível ver aí um ensaio que visa explicar a dificuldade em enfrentar essas questões. Explico-me: se o que mantém uma análise é o desejo do analista e o que nos mantém na Psicanálise é o que poderíamos chamar de desejo de Freud, a angústia provocada pelo desejo do Outro (A) poderia ser uma resposta. Lacan diz que suportar a culpa é sempre preferível à angústia.

A angústia está ligada ao desvanecimento, não podemos abordá-la sem uma certa vertigem. Retomemos aqui a afirmação salomônica de que tudo é vaidade: ela é ainda mais dura quando a tomamos na sua forma hebraica, primitiva, escrita – salvo melhor aviso –, com três letras (לךח), a lamed (l), a kaf (k, kh) e a het (h).  Nas versões tradicionais, estas letras traduzidas por vaidade (qualidade do que é vão), significam, antes de tudo, vapor, sopro, pertencendo ao repertório das imagens (água, sombra, fumaça, etc.), que na poesia hebraica denotam a fragilidade humana. Lacan prefere traduzir por vento, hálito e bafo. Sem o vento não há vida, Júpiter não infunde o espírito no húmus heideggeriano e as naus de Agamêmnon não saem do porto para guerrear Troia. Isso parece ser tudo: nada mais que hálito. Mesmo a última palavra do moribundo não é mais do que a expiração da primeira letra do alfabeto - como diz Joyce, ao final do seu Finnegans Wake -, nada mais que um longo a. A vida é bafo! Por vezes parece abafada.

Mas o que importa é que, para nós, esse bafo é linguagem, ainda que gasta, como queria Mallarmé, que mal armado não estava para dizer o que dizia! Se estamos falando de moeda, vejamos seus dois lados: verso e anverso. O seu valor de Versos gastos são expressões do tipo: Será que hoje chove? Que frio nesta época, imagine só! A marca da moeda gasta é a impessoalidade. Através dela não reconhecemos seu proprietário; o Ministro da Fazenda assina por todos. Por outro lado, o desgaste que a linguagem sofre com o uso, no entanto, é peculiar: se por vezes ela perde parte de seu conteúdo, de seu sentido, por vezes dele á acrescida. A comparação é muito feliz: cada vez que alguém usa uma palavra, tal qual a moeda, no momento em que a usa, ela é sua (salvo alguma acusação de apropriação indébita), para já deixar de sê-lo no momento imediatamente seguinte. Alguns têm mesmo o dom de introduzir palavras na linguagem: estes são dignificados com o nome do pai.

Às vezes o efeito de tomar a palavra como moeda gasta pode ser notada na leitura da palavra escrita, pois há uma tendência a tomá-la como expressão do verdadeiro: Na primeira leitura que fiz do Seminário Os nomes do pai, ao final da segunda página da aula de 20 de novembro de 1963, por exemplo, liamos, na tradução ao espanhol, que Lacan dizia da importância de desprender-se de toda a concepção que faça do sujeito un poro correado de lo inteligente a lo inteligible, del vous, e aí  não se entendia nada. Para entendê-la, era preciso substituir poro correado por puro correlato, e vous pela palavra grega nous. Assim ficava um pouco mais claro: uma coisa é que a angústia seja um afeto do sujeito, outra é querer transformá-la em um puro correlato do inteligente ao inteligível, do nous dos antigos gregos, entendido como faculdade de pensar, como a inteligência objetiva capaz de penetrar os objetos, pois aqui a angústia se mostra em posição crucial. Mallarmé por certo não estava pensando em erros de datilografia ou digitação, e eu estarei completamente de acordo; o que quero é chamar-lhes a atenção para os efeitos insuspeitos da angústia. Indo por esse caminho da moeda gasta, chegamos a teorias como a da inteligência afetiva e a outras pelo estilo, nas quais a inteligência
não é senão inteligência obscura, e obscurantismo é a última coisa que queremos.


Luiz-Olyntho Telles da Silva
maio/2018

______________________
1. Excerto do artigo Notas para uma história do Objeto a que será pulicado no próximo número da Revista Veredas, uma publicação do Traço Freudiano, Veredas Lacanianas, ainda no ano de 2018.


Notas Psicanalíticas: 01 (Os antecedentes do sujeito); 02 (O positivo e o negativo); 03 (Por que a Psicanálise?); 04 (A linguagem e os distúrbios emocionais); 05 (Sobe a ética da Psicanálise); 06 (A Psicanálise e a Literatura)


 
Não há a realidade sem a linguagem! Na impossibilidade de compreender o mundo em que vivemos, cercamo-nos de metáforas e vivemos ao seu abrigo. Mas como as soluções são sempre provisórias, característica primeira das metáforas, o problema é quando elas viram sintagmas cristalizados, metáforas petrificadas, momento em que se imagina poder morar para sempre nos tropos da retórica, a salvo da realidade.

SINOPSE
Um elefante em Albany Street comenta cinco diferentes formas narrativas: Epopeia, Teatro, Conto, Poesia e Romance. Em sua análise, percorre obras que vão desde a clássica Odisseia e sua paródia, o revolucionário Ulisses, passando por Chesterton e Molnár, até os mais contemporâneos e próximos, como Ana Mariano, Assis Brasil, Erico Verissimo, Cristovão Tezza e Vargas-Llosa, entre outros. Comparando as traduções com os textos originais, procurando o sentido encoberto, por vezes nos textos de outros autores citados, resgatando antecedentes, ou ainda buscando ler nas entrelinhas, mesmo por entre as palavras, e até nos diastemas, Luiz-Olyntho Telles da Silva detecta em cada autor as influências de sua formação – entre as quais vê preponderarem as autoridades de Dante, Goethe e Flaubert – e desvela, com nova abordagem crítica, as mensagens dos diferentes textos cujos ensinamentos servem tanto ao escritor que quer aprimorar a arte da descrição como ao homem que está continuamente aprendendo a viver. -
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